
Energia Eolica no RN - 05/09/2026
Do sertão ao mar, energia eólica vai tornar RN um polo de investimentos
Parques eólicos mudaram a paisagem e a economia de municípios do interior do RN e a próxima fronteira será no mar — José Aldenir/Agora RN
Dos municípios do sertão às águas do Atlântico, a força dos ventos transformou o Rio Grande do Norte em um dos principais territórios brasileiros para investimentos em energia renovável. Depois de mais de uma década de expansão dos parques terrestres, o Estado chega a uma nova etapa: manter a liderança na geração eólica em terra enquanto prepara infraestrutura, regras ambientais, transmissão e mão de obra para receber empreendimentos no mar.
Dados atualizados do Sistema de Informações de Geração da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) mostram a dimensão alcançada pelo setor elétrico potiguar. A base do órgão é atualizada diariamente e acompanha empreendimentos desde etapas anteriores à outorga até a operação comercial. O crescimento da eólica colocou o RN entre os grandes exportadores de eletricidade do País e criou uma cadeia que envolve construção civil, operação, manutenção, pesquisa e serviços especializados. A expansão continua. Em fevereiro deste ano, por exemplo, entrou em operação comercial a usina Ventos de São Rafael 10, com 58,5 megawatts (MW), integrante do Complexo Eólico Serra do Tigre, localizado entre Rio Grande do Norte e Paraíba. O empreendimento está entre as novas unidades acompanhadas pelo Ministério de Minas e Energia (MME) dentro da expansão do Sistema Interligado Nacional (SIN).
O avanço dos parques trouxe também efeitos para municípios do interior. Estudo apresentado pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial do Rio Grande do Norte (Senai-RN) e pelo MAIS RN identificou crescimento de atividade econômica, empregos e abertura de empresas em cidades que receberam empreendimentos eólicos. O desafio é fazer com que a renda gerada pela atividade se traduza também em ganhos sociais permanentes.
O vento já virou indústria no interior
A primeira etapa da revolução eólica potiguar ocorreu em terra. Áreas do Mato Grande, região Central, Seridó e Oeste receberam complexos formados por dezenas de aerogeradores, conectando municípios antes pouco presentes no mapa dos grandes investimentos privados a uma cadeia internacional de energia.
Além da geração propriamente dita, o setor criou demanda por estradas, linhas de transmissão, subestações, serviços técnicos e qualificação profissional. O Instituto Senai de Inovação em Energias Renováveis (ISI-ER), instalado no Estado, tornou-se uma das estruturas de pesquisa voltadas ao desenvolvimento e teste de tecnologias para o setor.
Mas o crescimento também revelou um gargalo: não basta instalar aerogeradores se a rede não tiver capacidade para transportar toda a eletricidade produzida. Os cortes de geração, conhecidos no setor como curtailment, tornaram-se uma das principais preocupações de empresas e investidores de fontes eólica e solar no Nordeste. Em julho, o MME regulamentou a compensação relacionada a cortes ocorridos entre setembro de 2023 e novembro de 2025.
A expansão da transmissão tornou-se, portanto, parte da disputa por novos investimentos. No primeiro semestre de 2026, mais de 2 mil quilômetros de linhas entraram em operação no País. O Plano de Outorgas de Transmissão de Energia Elétrica (Potee) 2026 prevê novos reforços no SIN, enquanto o chamado Bipolo Nordeste II deverá ampliar a capacidade de levar a produção renovável nordestina para os principais centros consumidores.
O problema é especialmente relevante para o RN: quanto maior a geração disponível, maior a necessidade de assegurar capacidade para despachá-la. Os novos projetos de transmissão serão decisivos para determinar quanto do potencial potiguar conseguirá efetivamente chegar ao mercado.
Próxima fronteira está no Atlântico
Se a primeira transformação aconteceu no sertão, a próxima está projetada para o mar. A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) estima em aproximadamente 140 gigawatts (GW) o potencial eólico offshore do Rio Grande do Norte, equivalente a cerca de 20% do potencial brasileiro estimado em 700 GW.
Os investimentos, entretanto, ainda precisam percorrer etapas regulatórias, ambientais e econômicas antes de se transformarem em parques. Projetos destinados à costa potiguar estão em processo de licenciamento no Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), responsável pelo licenciamento ambiental federal dos complexos eólicos marítimos. O órgão analisa impactos sobre pesca, navegação, turismo, aves, tartarugas, mamíferos marinhos e ambientes recifais, entre outros fatores.
Levantamento divulgado pelo Senai-RN mostrou projetos offshore que somavam 12,84 GW destinados ao Estado, com previsão de centenas de aerogeradores. O volume evidencia a escala potencial da nova indústria, embora projetos em licenciamento não devam ser confundidos com investimentos já contratados ou com usinas cuja construção esteja assegurada.
Uma iniciativa mais próxima da etapa tecnológica é a planta-piloto prevista para o mar de Areia Branca. Desenvolvido pelo ISI-ER e pela Dois A Engenharia, o projeto tornou-se o primeiro do gênero no País a obter licença prévia do Ibama. A primeira etapa prevê aproximadamente R$ 42 milhões para engenharia, estudos e desenvolvimento de soluções adaptadas às condições brasileiras.
Outro movimento procura resolver antecipadamente o problema do escoamento. Estudo do ISI-ER identificou 11 áreas consideradas mais adequadas para a passagem de cabos submarinos e linhas de transmissão, abrangendo cerca de 59,7 quilômetros do litoral. As rotas estudadas poderiam suportar o escoamento de mais de 38 GW, com corredores entre Touros e Caiçara do Norte, Galinhos e Macau e entre Porto do Mangue e Tibau.
É nesse ponto que o RN tenta transformar uma vantagem natural em vantagem econômica. Ter vento abundante colocou o Estado na liderança da primeira onda eólica brasileira. Para permanecer nela, será necessário combinar geração, transmissão, licenciamento, portos, fornecedores, pesquisa e formação profissional.
A corrida seguinte será mais complexa e mais cara. Se os projetos offshore avançarem, aerogeradores de maior porte, cabos submarinos, embarcações especializadas e estruturas portuárias deverão movimentar uma cadeia industrial distinta daquela formada pelos parques terrestres. O vento continua sendo o ativo inicial. O tamanho do investimento que ficará no Rio Grande do Norte dependerá da infraestrutura construída em torno dele. Fonte Agora RN.
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Comentários
disse:
em 01/01/1970 - 12:01
