Sob pretexto de ajudar a população afetada pela crise econômica, mafiosos emprestam dinheiro e controlam o comércio de itens como máscaras de proteção - 06/07/2020

Máfia italiana se aproveita da pandemia e expande atividades ilícitas

Protesto contra o governo em Roma, no dia 4 de julho

�Numa Itália imersa na crise provocada pelo coronavírus, talvez um único setor esteja melhor hoje do que quando foi decretada a quarentena, no início de março: a máfia. Desde que a pandemia se espalhou por todo o planeta, autoridades italianas de diferentes áreas vêm alertando sobre a oportunidade que a atual crise abriu às organizações criminosas. 

— Esse é o melhor dos mundos para as máfias — afirma a advogada Vicenza Ronda, vice-presidente da Libera, uma das maiores associações da Itália no combate ao crime organizado. 

O cenário favorece a expansão das atividades ilícitas na economia — inclusive nas negociações de máscara cirúrgica, item dos mais procurados no momento —, servindo para criar um consenso entre a população: o Estado é ineficiente e não consegue atender a todos. Com pequenos e médios negócios decretando falência, além do aumento do desemprego e da pobreza, parte da população acha melhor contar com a solidariedade do crime organizado, porque o suporte financeiro ilegal costuma chegar antes daquele prometido pelo governo. 

Poder financeiro 

Algumas cidades do país, em especial no Sul, já registraram cenas nos últimos dois meses que evidenciam a oportunidade criada pela pandemia: em Palermo, na Sicília, mafiosos distribuíram em bairros pobres o que foi chamado de “pacotes solidários” (cestas básicas) e até dinheiro. O episódio foi parar nos jornais e levou um integrante do clã siciliano a escrever em seu perfil no Facebook, após a repercussão, que se “orgulhava de ser mafioso” e poder “ajudar” a acabar com a fome de quem mais precisa. 

Estima-se que mais de um milhão de pessoas em toda a Itália passou a precisar de ajuda para comer após o início da pandemia, juntando-se aos outros 3 milhões que já passavam por dificuldades antes do coronavírus. 

O poder financeiro das máfias permite a elas uma certa rivalidade com o Estado, sobretudo ao emprestar dinheiro para comerciantes e famílias em dificuldade. O governo italiano aprovou recentemente um pacote de 55 bilhões de euros para ajudar na recuperação do país. Só com o tráfico de drogas, a Ndrangheta (um dos maiores grupos mafiosos italianos, que tem conexões com o PCC no Brasil) movimenta por ano cerca de 40 bilhões de euros. 

Há duas semanas, o chefe da polícia italiana, Franco Gabrielli, participou de uma conferência em um projeto da Interpol sobre a máfia e comentou que a Ndrangheta tenta aproveitar a crise da Covid para entrar na “produção de remédios e vacinas”. 

No final de março, quando a quarentena na Itália ainda não havia completado um mês, o serviço secreto informou ao governo — o relatório vazou à imprensa — sobre o risco de uma nova expansão das organizações na economia formal, além de uma possível participação de seus integrantes em revoltas e convulsões sociais. 

Para piorar, 498 pessoas condenadas por relação mafiosa saíram da prisão para cumprir a pena em casa por causa da emergência da Covid-19, o que acabou abrindo uma crise política no Executivo. Três dos presos beneficiados eram mafiosos considerados de alta periculosidade, submetidos a um regime restritivo que já previa o completo isolamento. 

A saída desses presos — motivada por rebeliões que estouraram em diversos cárceres no início da pandemia — causou a demissão do chefe nacional do serviço penitenciário e quase derrubou o Ministro da Justiça, Alfonso Bonafede, que continuou no cargo após o Senado italiano rejeitar, no dia 20 de maio, uma moção de desconfiança apresentada pela oposição. 

O governo reconheceu a falha — baseada numa lei ordinária — e apresentou um novo decreto para que os mafiosos voltem à prisão, mas o encarceramento de cada um deles deve ser avaliado individualmente pelos magistrados, o que levará algumas semanas. 

— Esse é um péssimo sinal, a presença desses líderes nos territórios de origem fortalece ainda mais os seus grupos — disse ao GLOBO Alessandra Dolci, procuradora do Tribunal de Milão e integrante da direção antimáfia. 

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Comentários

disse:

em 01/01/1970 - 12:01