O Agora RN conversou com alguns trabalhadores da categoria. Além da atividade, eles também têm algo a mais em comum: o medo - 21/08/2020

Profissão perigo: motoristas de aplicativo lutam contra aumento da violência no RN

Motoristas revelam que na Grande Natal são quatro ou cinco assaltos por semana - Cedida/Arte

Até antes da pandemia, a coisa andava mais ou menos assim: quatro ou cinco assaltos por mês. Agora, já em meio à crise econômica, e ainda com medo de ser contaminado pelo coronavírus, a vida de quem trabalha como motorista de aplicativo na Grande Natal está ainda mais tensa: são quatro ou cinco assaltos por semana. 

Os dados são do Sindicato dos Trabalhadores em Aplicativos de Transporte do Rio Grande do Norte (Sintat-RN). A categoria, que atualmente possui algo em torno de 2 mil profissionais cadastrados, acredita que cerca de 10 mil motoristas dirigem por algum tipo de aplicativo no estado atualmente. 

“É claro que nem todos estão na rua ao mesmo tempo. Diariamente, acreditamos que são 4 mil. Porém, metade disso, ou seja, 2 mil motoristas de aplicativo rodam pelo menos oito horas por dia. Que é o meu caso. E a nossa luta é pela segurança de todo mundo, de todos nós”, ressalta Carlos Cavalcanti, diretor do Sintat. 

Protesto 

E é por dias melhores, por mais segurança para a categoria, que aproximadamente 150 motoristas fizeram um enorme barulho esta semana. Na manhã da terça-feira, 18, o comboio percorreu várias avenidas da cidade até chegar ao Centro Administrativo do Governo do Estado. Lá, representantes do Sintat cobraram a realização de blitzen mais constantes e a presença mais forte do policiamento preventivo pelas ruas. O grupo foi recebido pelo coronel Francisco Araújo Silva, secretário da Segurança Pública e da Defesa Social, que prometeu providências. 

“O secretário disse para juntarmos todos os boletins de ocorrência registrados por causa dos assaltos para que a Polícia Militar possa fazer uma análise e montar barreiras de fiscalização nas áreas em que os crimes mais acontecem”, disse Carlos. 

Quem também participou do protesto foi o motorista Itamar Monteiro. Ele disse que na terça-feira da próxima semana, pela manhã, haverá uma reunião no Comando da Polícia Militar com a presença do comandante da corporação, coronel Alarico Azevedo, para tratarem sobre ações de combate à criminalidade que vem afetando os profissionais que trabalham com o transporte de passageiros. “O coronel disse que todos os comandantes, de todos os batalhões e de todas as cidades da Grande Natal, irão participar dessa reunião, que é muito importante para todos nós”, acrescentou Itamar. 

Números 

  • 10 mil são os motoristas de aplicativo que atuam no RN 

  • 4 mil rodam pelo menos uma vez por dia 

  • 2 mil trabalham em média 8 horas por dia 

  • Cinco assaltos por semana é a média de registros de violência contra a categoria 

  • Pelo menos 9 motoristas de aplicativo foram assassinados nos últimos 4 anos no RN 

“Os assaltantes estão agindo com requintes de crueldade” 

O Agora RN conversou com alguns motoristas de aplicativo. Além da atividade, eles também têm algo a mais em comum: o medo. 

“Só estou vivo hoje por obra de Deus. Levei 14 facadas. Senti o gosto do sangue na minha garganta, no meu estômago. E também senti que estava partindo, quando desmaiei. Hoje estou recuperado, mas não consigo voltar a trabalhar. Deixaram marcas e medo em mim, e levaram meu carro”. As palavras do motorista, que prefere o anonimato, expressam mais que a dor que ele sentiu ao sofrer vários golpes pelo corpo, quando quatro assaltantes o renderam, o agrediram, e depois roubaram seu automóvel – elas também representam indignação. 

“Meu carro era meu ganha-pão. Com ele eu trazia dinheiro para casa. É claro que minha vida vale muito mais. Mas também machuca muito saber que vem um vagabundo e leva tudo o que você tem e nada acontece com ele. Não é justo”, lamentou. 

O assalto foi à noite, em Parnamirim, já na hora em que o motorista retornava para casa. Foi a última corrida daquele dia, e a última desde então. “Até hoje espero recuperar meu carro. Rezo todos os dias para a polícia encontrá-lo. Se isso acontecer, eu volto a trabalhar. O medo sempre vai existir, mas eu preciso botar comida na minha mesa, preciso alimentar minhas crianças”, disse o motorista, que tem se sustentado com o auxílio emergencial pago pelo governo federal. 

Outro motorista, desta vez vítima de um assalto em Natal, também pediu para não ser identificado. Há dois meses ele atendeu o chamado de uma corrida. Foi pela manhã. Na foto que apareceu para ele pelo aplicativo, o rosto era de uma jovem. “O nome era Vitória, muito bonita. Acima de qualquer suspeita. Fui sem medo. Quando cheguei no local marcado, no conjunto Pirangi, apareceram dois rapazes. Gelei na hora. Um deles já mostrou uma arma para mim, enquanto o outro abria a porta do carona. Não pude mais fazer nada. Rodaram comigo até uma rua deserta, onde me obrigaram a entrar na mala do carro. Depois, comecei a rezar”, contou. 

Ainda na mala do veículo, o motorista lembra que deu para sentir quando os assaltantes perderam o controle do carro. O veículo capotou na marginal da BR-101, na altura de Neópolis, e a mala se abriu com a pancada. “Foi jogado pra fora que nem saco de batata. Por sorte não vinha nenhum carro atrás, ou ele teria passado por cima de mim. Mesmo todo dolorido, eu consegui me levantar e correr. Perdi o carro, mas estou vivo. Isso é o que importa”, frisou. 

Os casos acima também refletem a preocupação de Carlos Cavalcanti. “Semana passada tivemos registros de uns quatro ou cinco assaltos. Tá piorando. “Os assaltantes estão agindo com requintes de crueldade. Tem um colega nosso que teve até o crânio rachado pelos bandidos”, pontuou. 

“Estamos falando de quatro ou cinco assaltos por semana, mas ninguém sabe realmente quantos crimes são. Há muitos colegas que não prestam queixa. E quando contam suas histórias, as pessoas pensam que é brincadeira. Teve um colega nossa que pegou um passageiro na frente de uma pousada e parou com ele em um shopping. Ele pediu o celular emprestado para fazer uma ligação. Disse que iria só deixar um dinheiro com um amigo e voltava logo para o carro, para voltar para a pousada. Ele saiu caminhando com o celular, entrou no shopping e não voltou mais. Depois descobrimos que ele nem era turista nem estava hospedado na pousada. Foi violento? Não. Mas cometeu um crime do mesmo jeito. Esse caso sequer foi registrado, mas foi um crime. Precisamos de mais segurança”, cobrou o sindicalista. 

50 abandonaram a atividade 

A pandemia do coronavírus vem causando a demissão de milhares de trabalhadores em todo o país. Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) revelam que, somente no Rio Grande do Norte, aproximadamente 15 mil vagas com carteira assinada foram fechadas entre março e maio. Em meio aos motoristas de aplicativo, os efeitos também foram sentidos. Mas, nem tanto. 

“É natural pensarem que os desempregados correm logo para se tornar motoristas de aplicativo. Porém, com a diminuição das corridas, das pessoas evitando sair de casa, muitos também deixaram a atividade e partiram para outra profissão. Então, a quantidade oscilou, mas acabou se mantendo a mesma. Hoje, somos cerca de 10 mil em todo o estado”, destacou Carlos Cavalcanti. 

O Sintat tem trabalhado para amenizar não apenas os efeitos da crise econômica, mas também asa sequelas da violência. Somente este ano, o sindicato estima que pelo menos 50 motoristas de aplicativo largaram a atividade por causa da violência, apesar de receberem auxílio jurídico e psicológico. 

“Essa também é uma reivindicação nossa. Precisamos participar mais efetivamente dos debates que envolvem a segurança pública. Estamos pedindo um assento permanente no Conselho de Segurança Pública do nosso estado. Queremos participar das discussões, pois podemos evitar que outros colegas também abandonem a profissão”, concluiu o diretor. 

Em quatro anos, 9 motoristas assassinados no RN 

O primeiro aplicativo para motoristas particulares de passageiros começou a operar no Rio Grande do Norte no dia 26 de agosto de 2016. De lá para cá, os números da violência contra a categoria ainda são desconhecidos. Porém, os casos mais emblemáticos, certamente, são os de homicídio ou latrocínio (roubo seguido de morte). Levantamento feito pelo Agora RN encontrou registro de 9 motoristas mortos neste curto período. Abaixo, veja como está cada caso: 

  • Suetânia Santos do Nascimento, 29 anos 

Corpo encontrado carbonizado no dia 14 de agosto de 2017 na zona rural de Arez 

Giltemberg foi visto pela última vez com vida no dia 5 de setembro de 2018, quando saiu de casa, no município de São Gonçalo do Amarante, para atender a uma corrida. Contudo, segundo a Uber, essa corrida não foi solicitada pelo aplicativo. 

Na manhã do dia 8, o carro de Giltemberg foi encontrado no bairro Conab, na cidade de Goianinha, que fica a pouco mais de 12 quilômetros de Arez. Os pneus dianteiros estavam furados, e alguns acessórios do veículo haviam sido levados, como o aparelho de som e os alto-falantes. 

Já no dia 18, um cadáver foi encontrado em meio a um canavial na zona rural de Arez. A identificação do corpo, segundo a família do motorista, foi feita por causa de pinos de platina implantados na cabeça e na perna de Giltemberg em cirurgias que ele fez após um acidente. 

Ainda em 2018, a Polícia Civil identificou um dos dois suspeitos de participar da morte do motorista e efetuou a prisão, que ocorreu em Natal. O outro envolvido ainda é procurado. 

  • Alison José Nunes Azevedo, 28 anos 

 

Vítima de assalto no dia 29 de novembro de 2018 na Zona Norte de Natal 

Alison José Nunes Azevedo, de 28 anos, recebeu um chamado para uma ocorrida na noite de 29 de novembro de 2018, na Zona Norte de Natal. Criminosos entraram no carro e anunciaram o assalto. Eles fizeram o motorista dirigir até a casa de um familiar, no bairro Nossa Senhora da Apresentação. 

“Lá, apenas um dos bandidos entrou na casa com o motorista. Foi quando ele reagiu e foi baleado no peito. Os quatro assaltantes fugiram no carro do motorista”, revelou o delegado Rysklyft Factore, da DHPP. 

Ainda de acordo com o delegado, o motorista foi socorrido ao Hospital Santa Catarina, mas não resistiu ao ferimento. O carro foi encontrado abandonado no distrito de Santo Antônio, em São Gonçalo do Amarante. 

 

Segundo a Polícia Civil, o inquérito policial foi remetido à Justiça no mês de maio deste ano. Duas pessoas foram presas (Gabriel Silva da Costa e Ana Carolina dos Santos Dantas). Uma outra mulher, identificada como Mércia Cristina Bezerra da Silva, continua foragida. Um adolescente também foi apreendido. Um outro, também suspeito de participação no crime, morreu.  Agora RN.

 

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Comentários

disse:

em 01/01/1970 - 12:01